Queda no varejo e falta de insumos impedem setor calçadista de crescer com câmbio favorável

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A alta do dólar e a consequente queda nas importações de calçados asiáticos poderia ser um alento para o setor calçadista brasileiro. Seria uma possibilidade de retomada da parte do mercado dominada por produtos da China, Indonésia e Vietnã e de ampliação da participação do produto nacional no mercado externo com vendas em dólar. Mas o comércio de rua fechado – em razão do recrudescimento da pandemia –, a redução na renda do trabalhador, e a falta de insumos para a indústria travaram a recuperação do setor, que teve um 2020 sem motivos para comemorar.

De acordo com Luiz Barcelos, presidente do Sindicato da Indústria de Calçados de Minas Gerais (Sindicalçados-MG), houve aumentos de até 200% em algumas matérias-primas, como papelão, couro, borracha e metal. Alta que, segundo ele, deverá ser refletida nas vitrines já no próximo mês.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), o setor pode ter perdido 21,8% da sua produção no ano passado, retomando a patamares de 16 anos atrás. Na exportação, a queda foi de 18,6% – pior número desde 1983. A produção caiu de 908 milhões de pares em 2019 para 710 milhões de pares em 2020 – nível registrado em meados dos anos 2000. Apesar da criação de 30 mil postos de trabalho entre julho e novembro de 2020, 60 mil postos foram perdidos de março a julho. Já as exportações, que respondem por cerca de 15% das vendas, caíram 18,6% em volume de produção e 32,3% em valores de vendas. O pior resultado em quatro décadas.

”O estrago foi muito grande, mas esperamos que com a vacinação em massa e as coisas retornando ao normal possamos experimentar uma recuperação. Mas ainda vamos ficar longe do ideal”, disse em coletiva o presidente da Abicalçados, Haroldo Ferreira.

Ronaldo Andrade Lacerda, que preside o sindicato de produtores de Nova Serrana (MG) (Sindinova), que reúne 1.200 indústrias de calçados, lamenta a janela de oportunidade perdida.

”Fazendo uma análise de mercado houve, de fato, mais oportunidades para o produto brasileiro por causa da diminuição de importação dos produtos asiáticos, mas essa não foi nossa realidade porque toda a cadeia de suprimentos tá travada. Além de não ter insumos para produzir, as pessoas estão sem dinheiro para comprar. É uma oportunidade despediçada”, diz Lacerda.

Anti-dumping

O setor calçadista brasileiro está mobilizado pela renovação do direito antidumping aplicado contra o calçado importado da China e a abertura de um novo processo contras as origens Vietnã e Indonésia. Atualmente, para cada sapato importado da China, é aplicada uma sobretaxa de US$ 10,22, além da tarifa de importação. A medida foi adotada provisoriamente em 2009 e confirmada em 2010 pelo então Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio para proteger a indústria brasileira do que se considerou à época uma prática anticoncorrencial da industrial chinesa, que vendia seus calçados no Brasil a preços menores do que o custo de produção, a fim de ampliar sua participação no mercado nacional – prática conhecida como dumping. Em 2016, o governo brasileiro prorrogou a medida por mais cinco anos. Prazo que termina em março deste ano.

Para Haroldo Ferreira (Abicalçados), a medida é fundamental para garantir a competitividade da produção nacional.

”Como se sabe, o calçado asiático entra no Brasil a custos irrisórios, devido a subsídios governamentais e manipulação cambial. Se esses produtos entrarem livremente no Brasil, com o alto custo de produção que temos, veremos uma quebradeira generalizada no setor, pois não temos como competir”, diz Ferreira.

Antes da aplicação dessa sobretaxa, a importação de calçados chineses em 2008 foi de US$ 218,7 milhões – cerca de 70% do total importado. Já em 2010, após aplicação do mecanismo antidumping, houve uma retração de 75% e o volume caiu para US$ 59 milhões. Em 2019, o número foi de US$ 48 milhões.

A medida foi eficaz para impedir a entrada de calçados subfaturados chineses, mas ampliou as importações de calçados do Vietnã e Indonésia. Em 2008, antes da medida antidumping, a importação de calçados desses países era de US$ 62,6 milhões. Em 2010, o número saltou para US$ 192,2 milhões e, em 2019, o volume foi de US$ 264,4 milhões.

O setor pretende apresentar ao governo ainda este ano um relatório apontando uma possível prática de dumping pelas indústrias do Vietnã e da Indonésia, a fim de conseguir algum tipo de proteção para os fabricantes nacionais. O governo brasileiro ainda não se manifestou sobre a possível renovação das medidas antidumping que sobretaxam os calçados chineses.

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