Empresas adotam discurso da diversidade, mas cargos de comando seguem com homens

Atualizado em -

Empresas adotam discurso da diversidade, mas cargos de comando seguem com homens Freepic
► Descubra como a sigla ESG mudou a forma como as empresas lidam com questões ambientais, sociais e de governança► Nasdaq quer que empresas adotem medidas de ampliação de diversidade em conselhos

Mesmo reconhecendo que a diversidade em cargos de comando traz resultados econômicos positivos, as grandes empresas ainda têm poucos rostos femininos, negros e LGBTQ+ em seus conselhos e diretorias.

Um levantamento do Instituto Ethos realizado com 96 grandes empresas brasileiras aponta que 91% delas reconhece que políticas de diversidade melhoram o clima de trabalho, o ambiente organizacional, ajudam a reter talentos e aumentam a produtividade. No entanto, segundo o mesmo instituto, entre as 500 maiores empresas do país, a presença de mulheres em cargos sênior e executivos é de apenas 13,7%.

A presença feminina nas empresas diminui na medida em que se avança na hierarquia. O levantamento aponta que, apenas entre estagiários e aprendizes, a presença feminina é maior, numa proporção de 58,9% a 55,9%. Já nos cargos de trainee, a participação feminina cai para 42,6% e, nos de gerência, passa para 31,3%. Nos conselhos de administração, o percentual é de 11%. A progressão dos números escancara o problema.

Para Ana Lúcia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos, o cenário hoje já é de mais otimismo do que há cinco ou dez anos, mas uma mudança efetiva só é possível por uma combinação de fatores, que passa sobretudo pela postura das grandes empresas.

”As empresas, no seu micro universo, podem estabelecer esse maior senso de justiça, paralelamente a políticas públicas de empoderamento feminino. As empresas compreendendo com mais clareza que têm um papel importante dentro do seu ambiente de influência devem ser o catalisador dessa mudança de cultura”, completa Ana Lúcia Melo.

No mundo corporativo, os ainda pouco exemplos de mulheres no comando são fruto mais de persistência pessoal do que de uma política efetiva de valorização profissional.

“Mesmo sendo responsável por 75% da receita da empresa, eu era gerente e meus pares eram diretores. Ao questionar meu chefe, ele disse que, como eu era jovem, mulher e bonita, teria que me provar bastante antes, para não haver insinuações sobre a minha promoção”, conta Flávia Bittencourt, presidente da Adidas no Brasil e conselheira da BRF e da TIM.

As declarações de Flávia foram dadas em live promovida este mês pela Bússola, da revista Exame, que discutiu os desafios das mulheres para chegar a cargos de liderança. No mesmo encontro, Patrícia Villela Marino, cofundadora e presidente do Instituto Huimanitas360, destacou que o desafio é ainda maior para mulheres negras.

“Qualquer dificuldade que tenhamos tido, considero bem amenizada perto das dificuldades das mulheres negras desse país. Porque se somos uma população de 56% de negros, em grande parte mulheres, e não nos vemos, enquanto brancas, nos lugares de comando e de liderança, muito menos vemos as mulheres negras. Precisamos reconhecer esse lugar devido, necessário, dessa representatividade dessa brasilidade, que é a sua negritude”, disse Patrícia Marino.

Pequenos avanços

Ainda que insuficientes, as iniciativas para aumento da diversidade e da presença feminina em cargos de liderança vêm se multiplicando.

A bolsa de valores americana Nasdaq apresentou este mês proposta para que empresas listadas adotem e divulguem medidas de ampliação da diversidade em seus conselhos de administração, como mostramos aqui. Pela proposta, as empresas devem ter ao menos uma diretora que se identifique como mulher e um diretor ou diretora LGBTQ+. Empresas menores e estrangeiras.

No setor de mineração, tradicionalmente dominado por homens brancos e héteros, há leves sinais de uma mudança nos ventos. No último dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher – o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) lançou a campanha “Mulheres na Mineração”, com propostas para tentar aumentar a presença feminina nessas empresas.

O lançamento da campanha celebrou ainda o reconhecimento das quatro brasileiras que foram incluídas na lista das 100 mulheres mais inspiradoras do mundo pela 4ª edição do Women in Mining do Reio Unido. São elas: Ana Cunha, diretora de Relações Governamentais e Responsabilidade Social da Kinross Brasil; Neuma Moreira, gerente de Governança e Compliance da Anglo American; Juliana Marques, Diretora Comercial da Alcoa; e Patrícia Muricy, sócia da Deloitte, Global Mining & Metals Risk.

Também foi destaque no noticiário na última semana que a diretora executiva de Finanças e Relacionamento com Investidores da Petrobras, Andrea Marques de Almeida, foi listada entre as 100 mulheres mais poderosas do mundo na lista da Forbes. Andrea é a única brasileira na lista, pelo segundo ano consecutivo.

"O caminho ainda é longo, mas as pequenas conquistas do dia a dia precisam ser celebradas", diz Ana Lúcia Melo.

Relacionados:

► Descubra como a sigla ESG mudou a forma como as empresas lidam com questões ambientais, sociais e de governança► Nasdaq quer que empresas adotem medidas de ampliação de diversidade em conselhos

Leia mais: